O Dízimo
Um dogma cristão que não se discute é o dogma do dízimo, mas creio que uma reflexão séria sobre este assunto seja relevante.
Abaixo destaco o texto original da Lei mosaica sobre o dízimo:
Separem o dízimo de tudo o que a terra produzir anualmente.
Comam o dízimo do cereal, do vinho novo e do azeite, e a primeira cria de todos os seus rebanhos na presença do Senhor, o seu Deus, no local que ele escolher como habitação do seu Nome, para que aprendam a temer sempre o Senhor, o seu Deus.
Mas, se o local for longe demais e vocês tiverem sido abençoados pelo Senhor, pelo seu Deus, e não puderem carregar o dízimo, pois o local escolhido pelo Senhor para ali pôr o seu Nome é longe demais, troquem o dízimo por prata, e levem a prata ao local que o Senhor, o seu Deus, tiver escolhido.
Com prata comprem o que quiserem: bois, ovelhas, vinho ou outra bebida fermentada, ou qualquer outra coisa que desejarem. Então juntamente com suas famílias comam e alegrem-se ali, na presença do Senhor, do seu Deus.
E nunca se esqueçam dos levitas que vivem em suas cidades, pois eles não possuem propriedade nem herança próprias.
Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano e armazene-os em sua própria cidade,
para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o Senhor, o seu Deus, o abençoe em todo o trabalho das suas mãos.
Deuteronômio 14:22-29 (NVI)
A Lei Mosaica mandava separar todo ano o dízimo de tudo que a terra produzisse, e em seguida levar este dízimo para o lugar em que Deus escolhesse para habitação de seu Nome e comer este dízimo neste lugar a fim de assim desenvolver temor ao Senhor.
No caso de o lugar escolhido pelo Senhor ser demasiadamente longe, a Lei permite que se venda este dízimo e se compre o que comer diante do Senhor próximo ao lugar escolhido a fim de cumprir assim a ordenança.
É justo observar que o dízimo não se trata de dinheiro, e também não é cobrado de todos.
A Lei é clara quando diz que este dízimo se trata do que a terra produz e das primícias dos animais que se tem, portanto, o dízimo é obrigação apenas de quem tem terras e animais.
A prioridade do dízimo também não é sustento de instituição alguma, e também não traz prejuízo para aqueles que o entregam, mas tem o objetivo de desenvolver o temor do homem ao Senhor.
A Lei diz a seguir que de três em três anos o dízimo tem um outro objetivo, o de sustentar os Levitas, estrangeiros e desamparados (pobres e viúvas).
É importante ressaltar que o dízimo deve aí sustentar os levitas pois eles não possuem neste contexto terras e heranças, mas por conta de sua função são restritos a trabalhar no cuidado do Estado de Israel, dependendo assim da ajuda de custo deste dízimo recolhido de três em três anos para sobreviver.
Não existe nenhuma referência bíblica que aponte dízimo como obrigação de todos, nem mesmo que deva ser usado para sustento de instituição/ igreja.
O Novo Testamento só traz 7 referências a dízimo, e nenhuma delas o coloca como obrigação. Destacarei os textos abaixo:
Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Lucas 18:12
Este versículo trata de um episódio em que Cristo repreende um fariseu por ser hipócrita, nada mais que isto.
A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz; Hebreus 7:2
Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos. Hebreus 7:4
E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que tenham saído dos lombos de Abraão. Hebreus 7:5
E aqui certamente tomam dízimos homens que morrem; ali, porém, aquele de quem se testifica que vive. Hebreus 7:8
Estes quatro outros textos tratam da carta de Hebreus, na intenção do apóstolo de corrigir os hebreus (neste contexto judeus convertidos) em sua errônea tentativa de obrigar cristãos a seguir a lei judaica, já que na Lei de Cristo, na Graça, a Lei mosaica já cumpriu o seu papel, e agora estamos sob uma nova aliança.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas. Mateus 23:23
Mas ai de vós, fariseus, que dizimais a hortelã, e a arruda, e toda a hortaliça, e desprezais o juízo e o amor de Deus. Importava fazer estas coisas, e não deixar as outras. Lucas 11:42
Enfim, estes dois últimos versículos também são repreensões de Cristo a fariseus hipócritas. Além destes textos não serem usados na intenção de se formalizar uma ordenança de pagamento de dízimo, quando o dízimo não é repreendido por Cristo, em Lucas 11:42, há dois pontos que creio que devam ser ressaltados. Primeiro, Neste momento ainda Cristo não foi sacrificado, portanto, a Lei Mosaica ainda devia ser obedecida, e segundo, o dízimo que aí Cristo encoraja a pagar continua sendo dízimo do que se produz, e não de dinheiro.
Por que Jesus, em Mateus 6 e 7, quando reforçou 9 dos 10 mandamentos, não citou nada de dízimo? E porque ignora-se que Jesus, como exemplificado em Mateus 25:34-40 se preocupava com a ajuda aos necessitados, e em nada falou sobre dinheiro ou dízimo? Por que Paulo, que tanto se preocupou em doutrinar a igreja, nada disse sobre dízimos e sempre ressaltou o cuidado com os necessitados?
Alguém poderia usar o texto de Mateus 22:16-22 numa tentativa de justificar a cobrança do dízimo, mas o texto não trata de dízimo. O que Jesus ali afirma é que se o judeu usava a moeda do império romano, era lícito pagar imposto a César, mas a adoração não deveria ser dada a César, que se dizia a Deus, e sim ao Verdadeiro Deus que está nos Céus.
Transcrevo este texto abaixo:
E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, dizendo: Mestre, bem sabemos que és verdadeiro, e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas a aparência dos homens.
Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar o tributo a César, ou não?
Jesus, porém, conhecendo a sua malícia, disse: Por que me experimentais, hipócritas?
Mostrai-me a moeda do tributo. E eles lhe apresentaram um dinheiro.
E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
E eles, ouvindo isto, maravilharam-se, e, deixando-o, se retiraram.
Mateus 22:16-22
Enfim, se as instituições igrejas sustentam a obrigatoriedade do dízimo do salário, a todos os cristãos, mensalmente, no texto da Lei Mosaica, creio que a aplicação não caiba, pois o dízimo israelita tinha alvo diferente (quem possuía terras), propósito diferente (desenvolver temor ao Senhor, e em segundo lugar sustento de levitas e ajuda a necessitados) e era cobrado em período diferente (ano em ano e de três em três anos).
Ouso dizer que as instituições igrejas carecem de fundamentação bíblica para sustentar este dogma.
Trago dois textos abaixo, das cartas de Paulo à igreja de Corinto, em que ofertas são citadas:
Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia.
No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar.
E, quando tiver chegado, mandarei os que por cartas aprovardes, para levar a vossa dádiva a Jerusalém.
1 Coríntios 16:1-3
Portanto, tive por coisa necessária exortar estes irmãos, para que primeiro fossem ter convosco, e preparassem de antemão a vossa bênção, já antes anunciada, para que esteja pronta como bênção, e não como avareza.
E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância ceifará.
Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.
E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra;
Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; A sua justiça permanece para sempre.
Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, também vos dê pão para comer, e multiplique a vossa sementeira, e aumente os frutos da vossa justiça;
Para que em tudo enriqueçais para toda a beneficência, a qual faz que por nós se dêem graças a Deus.
Porque a administração deste serviço, não só supre as necessidades dos santos, mas também é abundante em muitas graças, que se dão a Deus.
2 Coríntios 9:5-12
Paulo no primeiro texto ressalta que o que será arrecadado é uma oferta, uma dádiva, portanto um presente para os santos de Jerusalém, e no segundo texto fala de uma oferta que já havia sido anunciada à igreja de Corinto. Por que Paulo ao tratar desta necessidade não cita a lei mosaica do dízimo? Paulo era judeu de nascimento, e a Igreja acabava de nascer. Paulo não apelou para lei mosaica, e não exortou a se “pagar” dízimo, mas apelou para a boa vontade em ofertar para ajudar aos santos. Creio portanto que nos primeiros anos da igreja não se via mais a necessidade do sustento do Estado Judeu, e não havia mais, depois do sacrifício de Cristo, ordenança mosaica de se pagar dízimo, mas permanece o sentimento de amor que nos constrange a ajudar quem realmente precisa.
Alguém poderia dizer que as instituições igrejas precisam deste dízimo para sustento de si e do pastor. Uma coisa é precisar, outra coisa é ser de direito. Se uma instituição igreja precisa, é lícito dizer que precisa, mas não é lícito colocar como obrigação bíblica, porque isto não é. É vergonhoso como o dízimo é colocado não só como obrigação, mas sob a ameaça de que se você não o entregar, será punido por Deus.
Creio que o fundamento do Cristianismo seja a Verdade, e é por esta que devemos lutar.